Papilomatose bovina: transmissão, controle e tratamento

Saiba como a papilomatose bovina se espalha, quando as verrugas exigem tratamento e quais medidas ajudam a controlar o problema no rebanho.

As verrugas podem parecer apenas um problema estético. Em tetas, boca, genitais ou no trato alimentar, porém, a papilomatose pode interferir no manejo, favorecer complicações secundárias e se espalhar pelo rebanho por contato direto ou indireto.

Papilomatose bovina, também conhecida como verruga ou figueira, é uma enfermidade causada por diferentes tipos de papilomavírus bovino (BPV), pertencentes à família Papillomaviridae. As lesões são, na maioria das vezes, benignas e podem regredir espontaneamente, mas localização, quantidade e persistência determinam o impacto sobre o animal.

Animais jovens são afetados com frequência, embora bovinos de qualquer idade possam apresentar lesões. Além disso, em vacas e novilhas leiteiras, papilomas em úbere e tetas merecem atenção especial porque podem dificultar a ordenha e traumatizar o canal do teto.

Por isso, o controle exige uma combinação simples, mas disciplinada: reduzir a disseminação, evitar trauma de pele, higienizar instrumentos e decidir quais animais realmente precisam de intervenção.


O que causa a papilomatose bovina?

Os papilomavírus bovinos são vírus de DNA circular de dupla fita, sem envelope. Assim, diferentes tipos de BPV podem produzir lesões com formatos e localizações distintas, e um mesmo animal pode apresentar mais de um padrão de papiloma.

Além disso, estudos realizados no Brasil mostram grande diversidade viral. Em uma investigação com papilomas de tetas de 73 vacas leiteiras do Sul do país, os pesquisadores identificaram 24 tipos diferentes de BPV no conjunto de amostras: oito tipos clássicos, seis tipos putativos já descritos e dez tipos putativos novos. O resultado evidencia a grande diversidade viral associada a essas lesões.

Essa diversidade ajuda a explicar por que a doença não apresenta uma única aparência e por que tratamentos ou vacinas experimentais podem ter respostas variáveis entre rebanhos.

A classificação mudou ao longo do tempo

Materiais mais antigos podem usar o termo “papovavírus”. A classificação atual coloca os papilomavírus bovinos na família Papillomaviridae.


Como o vírus se espalha no rebanho?

A transmissão ocorre por contato direto e também por objetos contaminados. O vírus pode alcançar a pele por pequenas abrasões, cortes ou outras lesões que funcionam como porta de entrada.

Na prática, equipamentos compartilhados ganham importância. Agulhas, instrumentos de descorna ou castração, tatuadores, aplicadores de brincos, cabrestos e estruturas onde os animais se esfregam podem participar da disseminação quando não são higienizados entre animais.

Além disso, em propriedades leiteiras, lesões nas tetas acrescentam outra rota de preocupação: mãos, materiais de limpeza e equipamentos de ordenha podem levar material contaminado de uma vaca para outra.

O vírus aproveita pequenas falhas de manejo

A mesma ferramenta usada em vários animais pode transformar uma lesão localizada em problema de lote. Higiene entre usos e redução de traumas de pele são medidas de alto valor preventivo.


Quais animais apresentam maior risco?

Os quadros cutâneos aparecem com frequência em bovinos jovens e suscetíveis. Por exemplo, quando muitos animais jovens entram em contato com o vírus ao mesmo tempo, a papilomatose pode assumir importância de rebanho.

No entanto, isso não significa que animais adultos estejam protegidos. Papilomas de tetas são observados em vacas e, especialmente, em novilhas próximas ao primeiro parto. Da mesma forma, lesões genitais também podem ocorrer em machos e fêmeas e merecem atenção por causa do trauma e da interferência na reprodução.

Além disso, a exposição pesa bastante. Ambientes com maior contato entre animais, compartilhamento de equipamentos e repetição de procedimentos que lesionam a pele favorecem a transmissão.


Como são as verrugas?

Os papilomas podem variar de poucos milímetros a grandes massas. Por exemplo, algumas lesões são lisas e planas; outras são pedunculadas, rugosas ou lembram uma pequena couve-flor. Além disso, em bovinos, ocorrem fibropapilomas, que envolvem proliferação do epitélio e do tecido fibroso subjacente.

As regiões mais lembradas são cabeça, pescoço e ombros. Por outro lado, também podem aparecer em úbere, tetas, pênis, vulva e outras áreas. Lesões em mucosas e no trato digestório são menos visíveis e pertencem a contextos específicos de infecção.

LocalizaçãoProblema que pode causarQuando ganha importância
Cabeça e pescoçoTrauma, sangramento e infecção secundária quando as lesões são numerosas.Massas extensas, ulceradas ou próximas aos olhos e boca.
Tetas e úbereDificuldade de ordenha, trauma pelo conjunto de ordenha e risco de infecção secundária.Lesões próximas ao orifício do teto ou que impedem o encaixe adequado da teteira.
GenitaisDor, trauma e interferência na monta.Papilomas em pênis, prepúcio, vulva ou vagina.
Pele corporalDano ao couro e incômodo quando há grande número de verrugas.Lesões extensas, traumatizadas ou com miíase/infecção.
Boca/faringe/esôfagoPode interferir na alimentação em situações incomuns.Dificuldade para apreender, mastigar ou deglutir alimento.

Papilomatose sempre causa perda de produção?

Casos leves e localizados podem passar sem impacto mensurável. No entanto, o problema muda quando a localização interfere diretamente na função do animal ou quando a carga de lesões é alta.

Em lesões de teto, estudos descrevem interferência na ordenha e no fluxo de leite, além de predisposição à mastite quando a localização compromete a integridade e a higiene do teto. Fora da glândula mamária, quadros extensos podem favorecer trauma, sangramento, infecção secundária e dano ao couro.

Nos bovinos de corte, as perdas tendem a aparecer principalmente nos quadros extensos, com desconforto, trauma, infecção secundária ou desvalorização do animal e do couro. Portanto, o número de verrugas sozinho não define a gravidade.

Localização pesa tanto quanto quantidade. Uma única verruga no orifício do teto pode causar mais problema produtivo que várias lesões pequenas em uma área sem atrito.

Como é feito o diagnóstico?

Na maioria dos casos, o aspecto das lesões permite uma suspeita clínica forte. Verrugas típicas em animais jovens ou lesões características de teto costumam ser reconhecidas no exame físico.

No entanto, lesões atípicas, persistentes, ulceradas ou com crescimento incomum merecem investigação adicional. A histopatologia ajuda a confirmar se a massa é um papiloma ou fibropapiloma e a excluir outros tumores ou doenças de pele.

Além disso, a PCR pode detectar DNA de BPV e auxiliar na identificação do tipo viral. No entanto, um resultado molecular positivo precisa ser interpretado junto com a lesão, porque DNA de papilomavírus também pode ser encontrado em pele clinicamente normal.

Nem toda massa com aspecto de verruga deve ser presumida como papiloma

Se a lesão cresce rapidamente, ulcera, sangra com facilidade, persiste por longo período ou apresenta aspecto pouco característico, biópsia e histopatologia ganham importância.


As verrugas podem desaparecer sem tratamento?

Sim. Muitos papilomas cutâneos regridem espontaneamente à medida que o sistema imune desenvolve resposta contra a infecção. Essa característica é importante porque pode criar uma falsa impressão de eficácia de tratamentos aplicados pouco antes da regressão natural.

O tempo varia. Algumas lesões desaparecem em alguns meses; outras persistem por muito mais tempo. Além disso, papilomas de tetas, em particular, podem permanecer e continuar interferindo na ordenha.

A decisão de tratar deve considerar localização, evolução e impacto funcional. Um animal jovem com poucas lesões pequenas e sem complicações pode precisar apenas de acompanhamento e medidas de controle da transmissão.


Quando o tratamento passa a ser necessário?

A intervenção ganha prioridade quando as lesões interferem em ordenha, alimentação, visão, reprodução ou movimentação; quando sangram repetidamente; ou quando surgem infecção secundária, miíase e trauma constante.

Lesões pedunculadas e isoladas podem ser candidatas à remoção cirúrgica, principalmente em áreas onde a verruga impede uma função normal. Em tetas, a decisão precisa ser cuidadosa para evitar dano ao canal e cicatrizes que prejudiquem a ordenha.

Em quadros extensos, a remoção individual de todas as lesões pode ser impraticável. Nesses casos, o veterinário precisa avaliar o impacto funcional, o estágio das verrugas, o risco de trauma e disseminação e as alternativas disponíveis.

Remover uma verruga não elimina automaticamente a infecção

A cirurgia resolve a lesão tratada, mas o animal pode carregar outras lesões ou material viral. O manejo do rebanho precisa continuar mesmo após a retirada.


Existe um tratamento específico e comprovado?

Não existe uma terapia única, com eficácia previsível para todos os tipos de papilomatose bovina. Além disso, a regressão espontânea e a diversidade de BPVs tornam a avaliação dos tratamentos particularmente difícil.

Vacinas autógenas são utilizadas em alguns contextos e existem estudos com respostas favoráveis. Entretanto, não há uma vacina de eficácia ampla estabelecida contra a diversidade de BPVs, e a evidência terapêutica permanece heterogênea. Um estudo de 2023 acompanhou grupos pequenos de dez bovinos por tratamento e encontrou regressão em diferentes proporções com autovacina, ivermectina, levamisol e outras abordagens. O tamanho amostral e o caráter autolimitante da doença impedem transformar esses resultados em protocolo universal.

Além disso, uma pesquisa brasileira publicada em 2025 desenvolveu um protótipo de vacina autógena nanoformulada contra BPV. No entanto, o trabalho foi de desenvolvimento e caracterização da formulação, e não demonstra ainda uma vacina de campo com eficácia estabelecida.

Tratamentos medicamentosos ou imunomoduladores devem ser decididos pelo médico-veterinário, levando em conta evidência disponível, categoria animal, registro do produto, via de uso e períodos de carência quando aplicáveis.

Cuidado com a “cura” atribuída ao último produto usado

Como muitos papilomas regridem sozinhos, uma melhora após determinada aplicação não prova que o produto causou a regressão. Estudos controlados são essenciais para separar efeito terapêutico de evolução natural.


E a ivermectina?

Existem estudos pequenos relatando regressão de papilomas após uso de ivermectina. Um trabalho de 2023 registrou recuperação em 7 de 10 bovinos do grupo tratado durante o período de acompanhamento.

Esse achado é interessante, mas não estabelece a ivermectina como tratamento padrão para papilomatose. Outros fatores, incluindo resposta imunológica individual e regressão natural, podem influenciar o resultado.

Esse resultado não deve ser transformado em protocolo rotineiro. Qualquer uso de ivermectina em animais de produção deve ocorrer sob orientação veterinária e respeitar a legislação, a bula do produto e os períodos de carência aplicáveis.


Papilomas nas tetas merecem um manejo próprio

Em bovinos leiteiros, a localização transforma uma lesão benigna em problema funcional. Papilomas filamentosos próximos ao orifício do teto podem obstruir o fluxo de leite ou impedir o funcionamento normal do conjunto de ordenha.

O Merck Veterinary Manual recomenda que lesões que interferem na ordenha possam exigir excisão, enquanto outras podem apenas ser acompanhadas. Além disso, é importante reduzir trauma, manter higiene da ordenha e evitar transferência de material entre vacas.

Um estudo brasileiro com 73 vacas leiteiras mostrou grande diversidade genética de BPV em papilomas de tetas. Isso reforça que “verruga de teto” não representa uma única infecção viral simples e ajuda a explicar diferenças de comportamento entre lesões.


Papilomatose pode virar câncer?

A maioria dos papilomas cutâneos é benigna e regride. Entretanto, alguns BPVs participam de processos neoplásicos em condições específicas.

A associação mais conhecida envolve infecção por determinados BPVs e exposição prolongada à samambaia-do-campo (Pteridium spp.). Compostos carcinogênicos e imunossupressores da planta podem atuar como cofatores no desenvolvimento de tumores do trato digestório superior e da bexiga.

Isso não significa que uma verruga comum na pele esteja “virando câncer”. O risco descrito na literatura depende de tipos virais, persistência, tecido afetado e cofatores ambientais específicos.

Verruga cutânea e câncer não são sinônimos

O cuidado com neoplasias é relevante em situações específicas, especialmente diante de lesões persistentes e de exposição crônica à samambaia. A maioria dos papilomas cutâneos comuns permanece benigna.


Como reduzir a disseminação na fazenda?

As medidas mais confiáveis são de biossegurança e manejo. Elas reduzem tanto a transmissão direta quanto a contaminação por equipamentos.

Checklist de controle

1. Identificar e registrar os animais com lesões.

2. Evitar entrada de bovinos com papilomas ativos sem avaliação e manejo de quarentena.

3. Separar animais muito afetados quando houver risco elevado de transmissão por contato.

4. Higienizar e desinfetar instrumentos entre animais, principalmente em descorna, castração, tatuagem e aplicação de brincos.

5. Não reutilizar agulhas de forma que favoreça transmissão entre bovinos.

6. Reduzir superfícies cortantes e situações que provoquem abrasões de pele.

7. Em rebanhos leiteiros, manejar vacas com lesões de teto de forma a reduzir contaminação de mãos, materiais e equipamentos.

8. Tratar infecções secundárias e miíases quando presentes, sob orientação veterinária.

9. Reavaliar lesões persistentes, atípicas ou de crescimento acelerado.


O que fazer quando vários animais aparecem com verrugas?

Primeiro, vale confirmar se todas as lesões são realmente compatíveis com papilomatose. Um surto aparente pode reunir doenças de pele diferentes, principalmente quando o diagnóstico foi feito apenas à distância.

Em seguida, procure o elo de transmissão. Procedimentos coletivos recentes, equipamentos compartilhados, contenção, instalações abrasivas e manejo de ordenha devem entrar na investigação.

A abordagem deve priorizar interrupção da disseminação antes de testar sucessivos tratamentos. Se houver grande número de animais acometidos, lesões persistentes ou prejuízo funcional, o veterinário pode definir amostragem, biópsia e estratégia terapêutica para o rebanho.

Em um surto, a pergunta mais importante não é qual produto passar na verruga. É onde o vírus está conseguindo passar de um animal para o outro.

Papilomatose bovina é zoonose?

Até o momento, não há evidência estabelecida de transmissão zoonótica de BPV para humanos. A literatura disponível não documenta de forma confirmada uma infecção humana causada por BPV.

Essa diferença é importante em lesões de teto. O pseudocowpox, causado por um parapoxvírus, pode produzir lesões em bovinos e é zoonótico, causando o chamado nódulo do ordenhador em pessoas. Por isso, lesões atípicas em teto ou mãos de trabalhadores exigem diagnóstico adequado.


Perguntas frequentes

Toda verruga precisa ser retirada?

Não. Muitos papilomas regridem espontaneamente. Por isso, a retirada costuma ser mais útil em lesões isoladas que interferem com ordenha, alimentação, visão, reprodução ou sofrem trauma repetido.

Papilomatose passa de um bovino para outro?

Sim. A transmissão pode ocorrer por contato direto e também por objetos contaminados, especialmente quando existem pequenas lesões na pele que facilitam a entrada do vírus.

Animais adultos podem ter papilomatose?

Sim. Bovinos jovens são frequentemente afetados, mas a doença ocorre em qualquer idade. Além disso, em vacas leiteiras, papilomas de úbere e tetas têm importância particular.

Existe vacina contra papilomatose?

Vacinas autógenas são usadas em alguns contextos, e existem abordagens experimentais em desenvolvimento. No entanto, a eficácia não é uniforme e depende do tipo viral e do protocolo. Não se deve assumir proteção ampla contra todos os BPVs.

Ivermectina cura papilomatose?

Pequenos estudos relataram regressão em parte dos animais tratados, mas a evidência disponível não permite considerar a ivermectina uma cura universal. A doença também pode regredir espontaneamente.

Papiloma de teto aumenta risco de mastite?

Lesões podem dificultar higienização e ordenha, sofrer fissuras e criar condições para infecção secundária. Por isso, papilomas em tetas merecem atenção mesmo quando são benignos.

Papilomatose pode voltar depois que as verrugas desaparecem?

Pode ocorrer recorrência ou surgimento de novas lesões, especialmente porque existem diferentes tipos de BPV e a imunidade é fortemente relacionada ao tipo viral.


Conclusão

A papilomatose bovina costuma ter evolução benigna, e muitas verrugas desaparecem espontaneamente. O problema, porém, ganha importância quando as lesões são numerosas, persistentes ou se instalam em regiões essenciais para a produção, como tetas, boca, olhos e genitais.

O controle deve priorizar a interrupção da transmissão, em vez de depender de uma única “receita” terapêutica. Higiene de instrumentos, redução de traumas, manejo dos animais afetados e atenção especial à ordenha são medidas com aplicação direta na rotina.

Quando a lesão interfere na função do animal, apresenta aspecto atípico ou persiste por muito tempo, o diagnóstico veterinário orienta se há indicação de remoção, biópsia ou outra abordagem.

Na prática, o manejo mais eficiente começa evitando que uma verruga em um animal se transforme em um problema de todo o lote.

A papilomatose é uma enfermidade viral contagiosa que pode se tornar um problema de rebanho. Tratar a lesão pode ser necessário; reduzir as oportunidades de transmissão é o que ajuda a limitar novos casos.

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Papilomatose bovina, transmissão e controle

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