Mortalidade de cordeiros: quanto custa perder um animal?

O cordeiro morreu com poucos dias de vida. Parece que a fazenda perdeu apenas um animal pequeno.
Porém, economicamente, perdeu o resultado de meses de reprodução, gestação e manejo — e uma receita que nunca chegará ao caixa.

Quanto custa perder um cordeiro? Em primeiro lugar, o valor de mercado de um recém-nascido não resume essa resposta. Além disso, na produção ovina, a mortalidade reduz diretamente o número de animais disponíveis para venda, reposição ou seleção e diminui a quantidade de quilos desmamados por matriz.

Além disso, antes da morte, a fazenda já consumiu grande parte dos recursos necessários para produzir aquele cordeiro. Ela manteve a ovelha, realizou a cobertura ou inseminação, acompanhou a gestação, forneceu alimentação e disponibilizou área e estrutura. Assim, se o cordeiro não chega à desmama, parte desse investimento permanece no custo da fazenda sem gerar o produto esperado.

Por isso, a gestão deve tratar a mortalidade de cordeiros como um indicador econômico, e não apenas sanitário. Por conseguinte, quanto maior a diferença entre cordeiros nascidos e cordeiros efetivamente desmamados, menor tende a ser a eficiência com que o sistema transforma matrizes, alimento, mão de obra e capital em produto vendável.


O erro de calcular a perda apenas pelo preço do cordeiro

Por exemplo, uma conta simples poderia multiplicar o número de cordeiros mortos pelo preço que eles teriam no momento da morte. Entretanto, esse método tende a subestimar o impacto econômico, principalmente quando a morte ocorre logo após o nascimento.

De fato, Otte et al. (2024), em um modelo bioeconômico aplicado à produção de ovinos, destacaram exatamente esse problema. Por isso, um cordeiro muito jovem quase nunca entra em uma negociação comercial e, portanto, atribuir a ele apenas um “valor de mercado” ignora o lucro que poderia gerar se sobrevivesse até uma idade comercial.

Como resultado, no modelo dos autores, reduzir a mortalidade dos cordeiros de 20% para 0% em um rebanho simulado de 100 fêmeas aumentou a receita anual do sistema. Assim, a diferença de receita correspondeu a aproximadamente US$ 90 por cordeiro adicional sobrevivente — valor muito superior ao preço atribuído a um cordeiro jovem naquele sistema.

Por isso, a análise não permite converter esse número diretamente para reais nem aplicá-lo a uma fazenda brasileira. Ainda assim, o resultado demonstra um princípio importante: o custo econômico da mortalidade inclui a produção futura que aquele animal deixou de entregar.

Valor do animal morto ≠ custo econômico da mortalidade

O valor econômico precisa considerar o que o cordeiro teria produzido se permanecesse vivo, descontando os custos variáveis que a fazenda ainda teria até a venda.


O que realmente entra na conta?

Nesse sentido, para medir corretamente a perda, é necessário separar custo contábil de impacto econômico. Alguns gastos já aconteceram antes da morte, e a fazenda não consegue recuperá-los. Outros deixariam de ocorrer porque o cordeiro morreu cedo.

Portanto, simplesmente somar todos os custos da matriz ao preço de venda esperado do cordeiro pode gerar dupla contagem. Por isso, o melhor raciocínio é avaliar a margem de contribuição que a fazenda deixou de gerar e, em seguida, considerar efeitos adicionais sobre a estrutura do rebanho.

ComponenteO que acontece quando o cordeiro morre
Receita de vendaA fazenda perde essa receita caso destinasse o animal à comercialização.
Margem futuraA fazenda perde a diferença entre a receita esperada e os custos variáveis necessários até a venda.
Reprodução e gestaçãoMenos cordeiros sobreviventes passam a absorver os custos que o sistema já consumiu.
ReposiçãoUma fêmea que poderia permanecer no rebanho deixa de estar disponível.
Progresso genéticoA fazenda pode perder animais potencialmente superiores antes da seleção.
AssistênciaDoença ou distocia podem acrescentar medicamentos e mão de obra antes da morte.

Existe evidência econômica brasileira?

De fato, Lôbo et al. (2011) estimaram valores econômicos para características produtivas de ovinos Morada Nova criados em sistema de pastagem nativa no semiárido brasileiro.

Além disso, no modelo, a mortalidade de cordeiros apresentou valor econômico negativo. Um aumento de 1% na característica mortalidade reduziu o resultado econômico em aproximadamente US$ 0,138 por ovelha por ano nas condições e preços considerados pelos autores.

No entanto, esse valor é histórico e específico daquele sistema. Portanto, uma simples conversão cambial não produz uma estimativa válida para a realidade atual. Em outras palavras, o ponto importante é outro: a mortalidade apareceu matematicamente como uma característica que destrói lucro por matriz mantida no sistema.

Uma matriz não é produtiva porque pariu

Do ponto de vista econômico, o resultado aparece quando ela entrega cordeiros vivos e produtivos até a etapa em que o sistema consegue comercializá-los ou incorporá-los ao rebanho.


Um exemplo simples: 100 matrizes

Por exemplo, considere, apenas para ilustrar a lógica, um rebanho com 100 ovelhas que produza 150 cordeiros nascidos em uma estação.

Assim, com mortalidade de 20%, 30 cordeiros morrem e 120 chegam à desmama. Se a mortalidade cair para 10%, as perdas diminuem para 15 animais e o número de cordeiros desmamados sobe para 135.

Portanto, reduzir a mortalidade pela metade gera 15 cordeiros adicionais sem aumentar o número de matrizes. Se cada cordeiro chegasse à desmama com 25 kg, isso representaria aproximadamente 375 kg adicionais de cordeiro desmamado.

No entanto, o valor econômico desses 375 kg dependeria do preço de venda e dos custos adicionais para manter os cordeiros vivos até a desmama. Por isso, essa conta deve ser feita com os dados reais da propriedade, e não com uma cotação genérica.

Reduzir mortalidade aumenta produção sem exigir mais matrizes. É uma das formas de elevar a saída do sistema recuperando um produto que o sistema já havia gerado biologicamente.

Por que a morte nos primeiros dias pesa tanto?

Além disso, a maior concentração das mortes costuma ocorrer no período perinatal e neonatal. Isso significa que boa parte da perda acontece logo depois que a gestação já consumiu praticamente todo o investimento planejado.

De fato, em um estudo publicado por Shiels et al. (2025), envolvendo mais de duas mil ovelhas em sistemas de produção a pasto, 75% das mortes de cordeiros ocorreram na fase neonatal de 0 a 3 dias. Infecções e distocia responderam por mais da metade das perdas pré-desmama.

Da mesma forma, no Brasil, Nóbrega Júnior et al. (2005) avaliaram a mortalidade perinatal em 27 propriedades do semiárido paraibano. Entre 90 cordeiros necropsiados, os pesquisadores atribuíram 41,1% das mortes a infecções neonatais, enquanto distocia e o complexo inanição/hipotermia responderam, cada um, por 10% dos casos.

Além disso, os autores destacaram medidas como atenção ao parto, ingestão adequada de colostro, cuidado com o umbigo e melhores condições ambientais para as matrizes e os recém-nascidos.


Quais são as principais causas de mortalidade?

Em geral, a importância de cada causa muda conforme clima, sistema, raça, prolificidade, higiene, nutrição e nível de assistência ao parto. Portanto, não existe um ranking universal aplicável a toda propriedade.

Entretanto, a literatura repete alguns grupos de causas: distocia, baixo vigor ao nascimento, inanição, hipotermia ou exposição, falha na ingestão de colostro, infecções neonatais, problemas de vínculo materno, malformações e predação.

Ponto críticoComo pode levar à perdaIndicador útil
DistociaHipóxia, trauma, natimortalidade e atraso para mamar.Partos assistidos e mortes ao nascimento.
Peso ao nascerPesos muito baixos reduzem vigor; pesos excessivos aumentam risco de distocia.Peso individual por tipo de parto.
ColostroFalha de energia e de transferência de imunidade passiva.Tempo até primeira mamada e vigor.
Frio/exposiçãoAumenta demanda energética e risco de hipotermia.Mortes nas primeiras 24–72 h e condições climáticas.
InfecçõesSepticemia, onfalopatias, enterites e pneumonias.Necropsia, diagnóstico e mortalidade por idade.
Nutrição da matrizAfeta peso ao nascer, vigor, colostro e produção de leite.ECC e alimentação no terço final.
Partos múltiplosMaior competição intrauterina e maior exigência materna.Sobrevivência por tamanho de ninhada.

Mais cordeiros nascidos sempre significam mais lucro?

Não necessariamente. A prolificidade aumenta o potencial de produção, porém também eleva a exigência sobre a matriz e o manejo neonatal.

De fato, um estudo brasileiro recente de Silveira et al. (2026) analisou 2.278 registros de 779 ovelhas Morada Nova em 13 rebanhos do semiárido. A análise associou cada cordeiro adicional por parto a um aumento de 3,51 kg no peso total de progênie à desmama, mas também a uma redução absoluta de 17 pontos percentuais na sobrevivência até a desmama.

Ainda assim, as ovelhas com partos múltiplos produziram maior biomassa total de cordeiros desmamados. Portanto, o resultado não significa que partos duplos sejam ruins.

Em outras palavras, o estudo evidencia um trade-off entre prolificidade e sobrevivência. Quanto maior o número de cordeiros nascidos, maior precisa ser a capacidade do sistema de alimentar a matriz, supervisionar o parto e garantir colostro, abrigo e leite para todos os recém-nascidos.

Prolificidade sem sobrevivência vira perda

Em resumo, o objetivo não é simplesmente maximizar cordeiros nascidos. É maximizar cordeiros e quilos efetivamente desmamados por matriz, dentro da capacidade nutricional e operacional da fazenda.


Distocia: quando a perda atinge cordeiro e matriz

Além disso, a distocia merece atenção especial porque seu impacto econômico não termina no cordeiro. Além disso, ela pode levar à morte da ovelha, reduzir seu desempenho subsequente e aumentar necessidade de assistência.

Por exemplo, Bruce et al. (2021) realizaram uma revisão sistemática e um modelo bioeconômico para sistemas australianos e neozelandeses. No conjunto de estudos, a revisão associou 47% das mortes de cordeiros avaliadas à distocia. Para a Austrália, o modelo estimou redução de aproximadamente AU$ 23 no lucro por ovelha acasalada devido às mortes de cordeiros e matrizes relacionadas à distocia.

Os autores calcularam esse valor para outra realidade produtiva e comercial. Entretanto, o resultado mostra por que a assistência ao parto pode ter retorno econômico quando direcionada às categorias e situações de maior risco.


O impacto aumenta em rebanhos mais férteis?

De fato, em termos absolutos isso pode acontecer. Quanto mais cordeiros o sistema é capaz de produzir, maior é o produto potencial perdido quando a taxa de sobrevivência é baixa.

No modelo de Otte et al. (2024), o custo absoluto da mortalidade juvenil aumentou quando os autores elevaram a taxa de parto. Isso acontece porque um sistema reprodutivamente eficiente gera mais animais que podem chegar à venda — ou ser perdidos antes dela.

Consequentemente, aumentar fertilidade sem melhorar sobrevivência pode produzir um resultado frustrante: mais cordeiros nascem, porém parte importante do ganho reprodutivo desaparece antes da comercialização.

A taxa de nascimento mostra o potencial do rebanho. A taxa de desmama mostra quanto desse potencial a fazenda realmente conseguiu transformar em produto.

Quais indicadores mostram o prejuízo?

Por isso, contar apenas os cordeiros mortos é pouco. A gestão precisa relacionar a mortalidade ao número de matrizes, cordeiros nascidos e quilos efetivamente desmamados.

IndicadorO que revela
Mortalidade do nascimento à desmamaPercentual do potencial produzido que o sistema perdeu.
Sobrevivência nas primeiras 72 hQualidade do parto, vigor, colostro e manejo neonatal.
Cordeiros desmamados por matriz expostaIntegra reprodução e sobrevivência.
kg desmamados por matriz expostaIntegra prolificidade, sobrevivência e crescimento.
Mortalidade por tipo de partoMostra se gêmeos ou múltiplos exigem manejo diferenciado.
Mortalidade por causaIndica onde o investimento preventivo tende a gerar mais retorno.
Margem por matrizTraduz o resultado biológico em resultado econômico.

Como calcular a perda da própria fazenda?

Primeiramente, o cálculo mais útil começa pelo número de cordeiros que deveriam chegar à desmama e quantos realmente chegaram.

Em seguida, estime o peso médio que os animais perdidos teriam na idade de comercialização e a receita correspondente. Depois, desconte os custos variáveis que a fazenda deixaria de gastar após a morte, como parte da alimentação, medicamentos e manejo futuro.

Por fim, acrescente efeitos específicos quando forem relevantes, como perda de uma futura matriz de reposição, despesas de tratamento, mortalidade da ovelha associada à distocia ou redução do valor genético disponível para seleção.

Uma forma prática de pensar a conta

Custo econômico evitável da mortalidade ≈ receita esperada do cordeiro − custos variáveis que a fazenda ainda teria até a venda + custos adicionais do evento + efeitos sobre reposição ou estrutura do rebanho.

Depois, multiplique esse valor pelo número de mortes consideradas evitáveis — não necessariamente por todas as mortes.


Toda mortalidade é evitável?

De fato, mesmo sistemas muito bem manejados não conseguem eliminar completamente mortes fetais, neonatais ou pré-desmama.

Por isso, a meta econômica não deve ser “zero mortalidade a qualquer custo”. Uma intervenção só faz sentido quando o valor das perdas que ela evita é superior ao custo adicional de nutrição, mão de obra, instalações, diagnóstico ou assistência.

Por exemplo, Shiels et al. (2025) estimaram que melhorias de manejo durante gestação, parto e pós-parto precoce poderiam prevenir aproximadamente um terço dos casos de mortalidade observados nos rebanhos avaliados.

Por isso, esse raciocínio é importante porque direciona recursos para perdas controláveis, em vez de transformar qualquer morte em sinal de fracasso do sistema.


Onde investir primeiro para reduzir perdas?

Antes de tudo, o primeiro investimento não é necessariamente comprar mais medicamentos. Antes disso, a fazenda precisa descobrir quando e por que os cordeiros estão morrendo.

Por exemplo, se as mortes se concentram no parto, a equipe precisa investigar distocia, peso ao nascimento e assistência. Se ocorrem nas primeiras horas, colostro, vigor, vínculo materno e hipotermia ganham prioridade. Por outro lado, mortes mais tardias aumentam a importância de infecções, parasitismo, leite e manejo sanitário.

Além disso, a nutrição da ovelha no terço final da gestação interfere em vários desses pontos simultaneamente. Ela influencia crescimento fetal, reservas energéticas do cordeiro, produção de colostro e capacidade da matriz de sustentar a lactação.

Portanto, reduzir mortalidade é normalmente um trabalho de integração entre nutrição, reprodução, maternidade, sanidade e seleção genética.


Perguntas frequentes sobre mortalidade de cordeiros

Quanto dinheiro a fazenda perde quando um cordeiro morre?

Em geral, não existe um valor fixo. O impacto depende do peso e valor esperado na venda, dos custos que ainda seriam necessários até a comercialização, da finalidade do animal e dos efeitos sobre reposição e estrutura do rebanho.

O preço do cordeiro ao nascimento representa a perda?

Geralmente não. De fato, um cordeiro recém-nascido possui pouco ou nenhum mercado direto. Economicamente, importa a margem que ele poderia gerar se sobrevivesse até a venda ou entrasse no rebanho como reposição.

Qual é o melhor indicador para acompanhar mortalidade?

A taxa de mortalidade é importante. Por isso, a gestão deve associá-la a cordeiros desmamados e quilos desmamados por matriz exposta. Assim, esses indicadores mostram quanto do potencial reprodutivo foi realmente convertido em produto.

Partos duplos aumentam o risco?

De fato, podem aumentar o risco individual de mortalidade porque os cordeiros tendem a enfrentar maior competição por nutrientes e leite. Entretanto, partos múltiplos também podem aumentar o total de quilos desmamados por ovelha quando o manejo sustenta boa sobrevivência.

Qual período concentra mais perdas?

Em geral, as primeiras horas e os primeiros dias são os períodos mais críticos. Contudo, a distribuição das mortes varia entre propriedades, e cada fazenda deve medi-la no próprio rebanho.

Reduzir mortalidade sempre aumenta lucro?

Em geral, reduzir perdas evitáveis tende a melhorar resultado, mas a intervenção também possui custo. O objetivo é reduzir mortalidade até o ponto em que o benefício econômico da prevenção supera o investimento necessário.


Conclusão

De fato, perder um cordeiro é economicamente mais complexo do que perder o valor de um animal recém-nascido. A mortalidade reduz a quantidade de produto que o sistema obtém de um número de matrizes que já consumiu alimento, área, mão de obra e capital durante todo o ciclo reprodutivo.

Além disso, quanto maior o potencial reprodutivo do rebanho, mais importante se torna converter nascimento em sobrevivência. Prolificidade alta com mortalidade alta pode transformar um avanço reprodutivo em pouco ganho econômico.

Por isso, a medida mais útil não é apenas quantos cordeiros nasceram. É quantos chegaram à desmama, quantos quilos foram produzidos por matriz e quanto de margem cada matriz efetivamente deixou no sistema.

Em resumo, a mortalidade é cara porque elimina o produto depois que o sistema já realizou boa parte do investimento para produzi-lo. Reduzi-la significa recuperar eficiência antes de aumentar o tamanho do rebanho.

O cordeiro morto não aparece na receita. Mas todos os recursos usados para produzi-lo continuam aparecendo no custo.

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