Flushing nutricional em ovelhas é o aumento estratégico da oferta de nutrientes antes e, conforme o programa, no início da estação de acasalamento. Por isso, o objetivo principal é melhorar a resposta ovariana, especialmente a taxa de ovulação, e aumentar a possibilidade de obter mais cordeiros por matriz.
Entretanto, a resposta não é automática. De fato, condição corporal, peso, qualidade da dieta basal, raça, época do ano, duração da suplementação e tipo de nutriente modificam o resultado. Por isso, duas propriedades podem utilizar “flushing” e obter respostas completamente diferentes.
Além disso, a estratégia não substitui um programa nutricional bem conduzido ao longo do ano. Nesse sentido, uma ovelha muito magra, com deficiência nutricional prolongada, não recupera em poucos dias tudo o que perdeu durante meses.
O que é flushing nutricional?
Em termos práticos, o flushing aumenta temporariamente o plano nutricional próximo ao acasalamento. Por exemplo, esse aumento pode vir de pastagem de melhor qualidade, maior disponibilidade de forragem, concentrado, suplemento proteico-energético ou outra combinação formulada para o sistema.
De acordo com a Embrapa Caprinos e Ovinos, a suplementação com alimentos de alta concentração de nutrientes a partir de aproximadamente 15 dias antes da cobertura pode melhorar o desempenho reprodutivo, principalmente quando a condição corporal das matrizes está abaixo do adequado.
Por isso, o conceito mais importante não é um ingrediente específico. Em outras palavras, flushing descreve uma mudança positiva e planejada no nível nutricional ao redor da estação de monta.
Por que a nutrição consegue alterar a ovulação?
A reprodução responde ao estado metabólico da ovelha. Dessa forma, mudanças na disponibilidade de nutrientes modificam sinais metabólicos que chegam ao eixo reprodutivo e ao próprio ovário.
Scaramuzzi et al. descreveram que a suplementação nutricional pode modificar glicose, insulina, leptina e hormônios reprodutivos, além de provocar alterações dentro do folículo ovariano. Por conseguinte, a nutrição pode estimular a foliculogênese e alterar a quantidade de folículos que chegam à ovulação.
Em ovelhas de baixa condição corporal, Viñoles et al. observaram que uma suplementação nutricional de curta duração elevou glicose, insulina e leptina e modificou o desenvolvimento folicular. Portanto, parte da resposta ao flushing ocorre rapidamente e não depende apenas de a ovelha ganhar grande quantidade de peso.
Quais ovelhas tendem a responder melhor?
Em geral, o flushing apresenta maior interesse em matrizes com condição corporal intermediária ou abaixo da meta do sistema, desde que ainda tenham capacidade de responder a uma melhoria nutricional de curto prazo.
Um estudo publicado na Pesquisa Agropecuária Brasileira avaliou 64 ovelhas Pelibuey combinando dois níveis de alimentação e duas faixas de condição corporal. O nível alimentar afetou ovulação, retorno ao estro, prenhez e prolificidade, enquanto a interação entre alimentação e condição corporal também influenciou vários desses indicadores.
Além disso, os autores concluíram que a função reprodutiva foi mais sensível à melhoria nutricional nas ovelhas com menor condição corporal. Por isso, esse resultado reforça a lógica de usar o escore corporal para decidir quem realmente precisa do flushing.
| Situação da matriz | Como interpretar o flushing |
|---|---|
| Condição corporal abaixo da meta | Maior possibilidade de resposta, desde que a restrição não seja extrema e haja tempo para correção. |
| Condição corporal adequada | A resposta pode existir, mas tende a ser menos previsível e precisa justificar o custo. |
| Matriz excessivamente gorda | Aumentar ainda mais a oferta pode não melhorar a ovulação e pode criar problemas de manejo corporal. |
| Perda de peso próxima à monta | Interromper a trajetória negativa pode ser mais importante do que fornecer um ingrediente específico. |
| Deficiência nutricional severa | Exige recuperação planejada; um flushing curto não substitui a correção de longo prazo. |
Quando começar o flushing?
Em geral, não existe uma única duração válida para todos os sistemas. Entretanto, o período imediatamente anterior à estação de monta é o alvo clássico porque coincide com o desenvolvimento dos folículos que participarão das próximas ovulações.
A Embrapa cita suplementação a partir de cerca de 15 dias antes da cobertura. Por outro lado, estudos experimentais utilizam períodos maiores. Em 2025, por exemplo, um trabalho brasileiro com ovelhas Santa Inês iniciou a suplementação três semanas antes do acasalamento e a manteve durante a estação de monta.
Além disso, uma análise de 20 experimentos conduzidos no Uruguai, envolvendo 3.720 ovelhas, mostrou que a resposta varia conforme o tipo de suplemento, ingestão total de energia, proteína e peso inicial das matrizes.
Portanto, o melhor momento deve ser definido a partir da estação de monta, da dieta disponível e do estado corporal do lote — e não por um calendário copiado de outra propriedade.
Por quanto tempo manter a suplementação?
Em programas comerciais, é comum manter a melhoria nutricional durante parte inicial da estação de monta. Dessa forma, isso ajuda a sustentar o plano nutricional enquanto as primeiras coberturas e concepções acontecem.
Contudo, aumentar a duração não significa aumentar indefinidamente a resposta. De fato, trabalhos clássicos já mostravam que o benefício depende do estado corporal e da trajetória nutricional, enquanto estudos mais recentes demonstram respostas inclusive com suplementações curtas quando o momento e o nutriente são adequados.
Por isso, a duração deve equilibrar três pontos: janela fisiológica, resposta corporal e custo. Manter concentrado durante muitas semanas sem medir resultado pode transformar uma técnica reprodutiva em apenas um aumento de custo alimentar.
Quanto fornecer?
Não existe uma recomendação segura em quilos ou percentual do peso corporal que sirva para todas as ovelhas. Por isso, a dose depende do alimento, teor de matéria seca, energia, proteína, consumo de pasto, peso das matrizes e objetivo reprodutivo.
De fato, estudos brasileiros já testaram níveis como 0,5% e 1,0% do peso corporal em suplemento, enquanto outros trabalhos utilizaram dietas calculadas acima das exigências de mantença. No entanto, esses valores descrevem protocolos experimentais; eles não devem virar prescrição automática.
Além disso, a introdução brusca de concentrado aumenta o risco de distúrbios digestivos. Portanto, quando o flushing exige mudança importante no consumo de concentrado, a adaptação nutricional precisa fazer parte do planejamento.
Energia ou proteína: o que importa mais?
Em primeiro lugar, a resposta depende da dieta basal. Em sistemas a pasto, a deficiência que limita a função reprodutiva pode estar na ingestão de energia, na proteína disponível ou na combinação entre ambas.
Banchero et al. analisaram 20 experimentos realizados sob condições comparáveis. Além disso, no conjunto dos dados, a taxa de ovulação foi fortemente relacionada à ingestão total de energia. Entretanto, ovelhas em pastagem nativa que receberam suplementos proteicos também apresentaram maior taxa de ovulação que controles sem suplementação.
Por outro lado, acrescentar apenas um suplemento energético sobre determinada pastagem nativa não aumentou automaticamente a taxa de ovulação. Em outras palavras, o nutriente que falta na dieta é mais importante do que a ideia genérica de “dar energia”.
O flushing sempre aumenta a prolificidade?
Não. De fato, esse é um dos pontos mais importantes para evitar promessas exageradas. A literatura mostra respostas positivas, neutras e dependentes do contexto.
Em 2025, um estudo brasileiro com 60 ovelhas Santa Inês comparou ausência de suplemento com suplementação de 0,5% e 1,0% do peso corporal. As proporções de partos gemelares foram numericamente de 19%, 52,9% e 44,4%, respectivamente. Contudo, essa comparação apresentou P=0,08, acima do limite convencional de 5%.
Ainda assim, os autores concluíram que o flushing aumentou a ocorrência de nascimentos gemelares e melhorou a eficiência reprodutiva no sistema estudado. Portanto, esse resultado deve ser interpretado junto com o tamanho da amostra e a significância estatística apresentada.
Por outro lado, um trabalho da Embrapa com 156 ovelhas deslanadas submetidas a flushing com suplementos lipídicos não encontrou efeito significativo sobre fertilidade ou prolificidade. Portanto, o nome “flushing” não garante resposta.
Qual é o papel do escore de condição corporal?
Antes de tudo, o escore de condição corporal é uma das ferramentas mais úteis para decidir o flushing porque traduz as reservas energéticas da matriz de forma prática.
A Embrapa destaca que a resposta à suplementação pré-cobertura tende a ser especialmente relevante quando a condição corporal está inadequada, citando ECC inferior a 2,5 como situação de atenção. Entretanto, o alvo ideal precisa considerar raça, escala de avaliação e sistema de produção.
Além disso, o ECC deve ser avaliado com antecedência. Se a maioria das matrizes chega muito magra à pré-monta, o problema não é apenas “falta de flushing”; existe uma falha nutricional anterior que precisa ser corrigida.
Flushing consegue corrigir ovelhas muito magras?
Em resumo, não em poucos dias. Ainda assim, uma elevação nutricional curta pode produzir efeitos metabólicos agudos, mas não reconstrói rapidamente reservas corporais profundamente reduzidas.
Por isso, lotes muito abaixo da meta precisam de recuperação antes da janela clássica de flushing. Caso contrário, a suplementação chega tarde e tenta corrigir, em duas ou três semanas, um déficit acumulado durante meses.
Em contrapartida, matrizes moderadamente abaixo do alvo e em trajetória de ganho podem ser candidatas mais interessantes, porque o sistema combina melhoria do estado nutricional com a janela fisiológica da ovulação.
Flushing induz cio ou sincroniza a estação de monta?
Em outras palavras, não deve ser tratado como método de sincronização. O aumento nutricional pode melhorar a resposta ovariana, mas não substitui protocolos hormonais quando o objetivo é sincronizar estro com precisão.
Da mesma forma, em situações de anestro sazonal, a nutrição sozinha não garante que todas as fêmeas iniciem atividade cíclica. Além disso, fotoperíodo, raça, latitude, condição corporal e efeito macho continuam influenciando a reprodução.
Portanto, flushing, efeito macho e protocolos hormonais são ferramentas diferentes. Elas podem fazer parte de um mesmo programa, porém cada uma atua por mecanismos e com objetivos próprios.
Como o flushing se integra à estação de monta?
Primeiramente, a fazenda deve avaliar ECC, peso e disponibilidade de alimento algumas semanas antes da entrada dos carneiros ou do início do protocolo reprodutivo.
Em seguida, o lote deve ser separado conforme necessidade nutricional. Dessa forma, matrizes que já estão em condição adequada não recebem automaticamente o mesmo nível de suplemento destinado às ovelhas que precisam melhorar seu plano nutricional.
Além disso, a dieta precisa ser ajustada antes da cobertura e monitorada durante a fase definida. Consumo, sobra, adaptação, ganho de peso e condição corporal ajudam a confirmar se o manejo planejado realmente chegou ao animal.
Fluxo prático de decisão
1. Avaliar ECC e peso das matrizes.
2. Analisar pasto, volumoso e suplemento disponíveis.
3. Identificar os lotes com maior chance de resposta.
4. Definir a data da estação de monta.
5. Formular a elevação nutricional e fazer adaptação quando necessária.
6. Iniciar o manejo antes da cobertura, conforme o programa técnico.
7. Monitorar consumo, condição corporal, cio, prenhez e prolificidade.
8. Comparar o resultado reprodutivo com o custo adicional da suplementação.
Como saber se o flushing funcionou?
Por isso, observar apenas se as ovelhas ganharam peso é insuficiente. De fato, o objetivo é reprodutivo; portanto o resultado precisa aparecer nos indicadores da estação de monta e do parto.
| Indicador | O que ele ajuda a responder |
|---|---|
| ECC no início e no fim | O plano nutricional realmente mudou a condição das matrizes? |
| Manifestação de estro | Quantas fêmeas expressaram atividade reprodutiva no período? |
| Taxa de prenhez | Quantas matrizes ficaram gestantes? |
| Prolificidade | Quantos cordeiros nasceram por ovelha que pariu? |
| Partos múltiplos | A estratégia alterou a distribuição de partos simples e gemelares? |
| Cordeiros nascidos por matriz exposta | O ganho de prolificidade realmente elevou a produção do lote? |
| Cordeiros e kg desmamados por matriz | O resultado adicional sobreviveu até a desmama? |
| Custo por cordeiro adicional | O benefício reprodutivo pagou a suplementação? |
Mais gêmeos sempre significam melhor resultado?
Não necessariamente. Por exemplo, aumentar a taxa de ovulação pode elevar a ocorrência de partos múltiplos, mas isso também aumenta a demanda nutricional durante gestação e lactação.
Além disso, cordeiros de partos múltiplos tendem a nascer mais leves do que cordeiros de parto simples. No estudo brasileiro de 2025, cordeiros de partos simples foram mais pesados individualmente, embora o peso combinado dos gêmeos à desmama tenha sido maior.
Por isso, a decisão econômica deve considerar todo o ciclo. Aumentar prolificidade sem ajustar nutrição gestacional, maternidade, colostragem e manejo de cordeiros pode transformar parte do ganho reprodutivo em mortalidade ou baixo desempenho.
Quais erros mais reduzem o resultado do flushing?
Em primeiro lugar, iniciar a estratégia sem conhecer o ECC das matrizes faz com que o mesmo suplemento seja entregue para animais com necessidades diferentes.
Além disso, copiar uma quantidade de concentrado de outro rebanho ignora diferenças de peso, pastagem, composição do suplemento e consumo real. Além disso, outro erro é começar tarde, quando as primeiras coberturas já aconteceram.
Por fim, avaliar sucesso apenas pela taxa de prenhez esconde parte do efeito. Flushing é frequentemente usado para modificar taxa de ovulação e prolificidade; por isso, parto, sobrevivência e quilos desmamados também precisam entrar na avaliação.
Quando o flushing provavelmente não compensa?
Em geral, o flushing tende a ter baixa justificativa quando as matrizes já estão em condição corporal adequada, a dieta basal supre bem as exigências e o histórico mostra pouca resposta reprodutiva adicional.
Da mesma forma, pagar caro por suplemento para aumentar partos múltiplos pode ser uma decisão ruim quando a estrutura da fazenda não consegue manejar o maior número de cordeiros.
Portanto, o cálculo precisa comparar custo adicional por matriz com cordeiros adicionais nascidos e, principalmente, desmamados. Por isso, sem essa conta, a fazenda sabe quanto gastou, mas não sabe se a técnica criou valor.
Perguntas frequentes sobre flushing nutricional em ovelhas
Quantos dias antes da monta devo iniciar o flushing?
Como referência prática, a Embrapa cita início cerca de 15 dias antes da cobertura, enquanto estudos utilizam períodos de duas a três semanas ou mais. O protocolo deve considerar dieta basal, ECC, sistema e data da estação de monta.
Toda ovelha precisa de flushing?
Não. Ovelhas em condição corporal adequada e recebendo dieta compatível com suas exigências podem apresentar pouco benefício adicional. Por isso, o ECC ajuda a selecionar os lotes prioritários.
Flushing aumenta a taxa de prenhez?
De fato, pode aumentar em alguns contextos, mas a resposta não é garantida. Estudos mostram efeitos sobre ovulação, prenhez e prolificidade, porém também existem experimentos sem diferença significativa.
Flushing aumenta gêmeos?
Pode aumentar a taxa de ovulação e, consequentemente, a ocorrência de partos múltiplos. Entretanto, genética, condição corporal, época e nutrição basal também interferem na prolificidade.
Posso fazer flushing apenas com milho?
Em geral, não existe um ingrediente universal. O suplemento precisa corrigir o nutriente limitante da dieta total e ser fornecido com adaptação e equilíbrio nutricional.
Ovelhas muito magras respondem ao flushing?
Ainda assim, uma melhoria nutricional pode ajudar, porém animais muito abaixo da condição desejada exigem recuperação antecipada. Um período curto de suplementação não substitui a correção de um déficit corporal prolongado.
O flushing substitui sincronização de cio?
Não. Em outras palavras, flushing é uma estratégia nutricional voltada principalmente à resposta ovariana. A sincronização hormonal e o efeito macho são ferramentas reprodutivas diferentes.
Como avaliar se valeu a pena?
Por fim, compare custo da suplementação com prenhez, prolificidade, cordeiros nascidos, sobrevivência, quilos desmamados por matriz e valor dos cordeiros adicionais produzidos.
Conclusão
Em conclusão, o flushing nutricional pode melhorar os resultados reprodutivos de ovelhas, principalmente quando corrige um plano nutricional insuficiente próximo à estação de monta e é direcionado às matrizes com maior possibilidade de resposta.
Entretanto, a técnica não é sinônimo de simplesmente aumentar o concentrado. Condição corporal, dieta basal, duração, adaptação, nutriente limitante e capacidade de manejar partos múltiplos determinam se a estratégia criará resultado ou apenas custo.
Além disso, a literatura deixa claro que o efeito não é uniforme. Estudos recentes mostram melhora da resposta reprodutiva em determinados cenários, enquanto outros não identificam ganhos significativos.
Em resumo, o melhor flushing começa antes do cocho: começa na avaliação das matrizes, da dieta e do objetivo reprodutivo. Em outras palavras, a suplementação é a ferramenta; a decisão técnica é o que determina o resultado.
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